Entrevistas

ENTREVISTA COM PELÉ DO VÔLEI, ÍDOLO DO MINAS 

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Acervo pessoal/Pelé do Vôlei

José Francisco Filho, o Pelé do Vôlei, é um dos ícones da modalidade no Brasil. Atuando pelo Minas, nos anos de 1980, conquistou os principais títulos defendendo o clube, como a Liga Nacional e o Sul-Americano. Entrou para a história do esporte no país, ao quebrar a hegemonia dos times do eixo Rio-São Paulo, sendo o melhor atacante da Liga Nacional por 7 vezes. Com a camisa da seleção brasileira, foi tetracampeão sul-americano, bronze na Copa do Mundo, em 1981, e nos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis, em 1987. Ele ainda foi eleito a Revelação da Copa do Mundo de 1985. Pelé também seguiu carreira internacional pelos clubes. Ele disputou o Campeonato Italiano, principal liga da época, ao lado do campeão olímpico Carlão e do atual técnico da seleção brasileira masculina, Renan Dal Zotto. Atualmente, Pelé se dedica a política e mantém uma escolinha de vôlei em Belo Horizonte. Ele cumpriu mandato como vereador no período entre 2012/2016 e recentemente foi nomeado Secretário de Esportes de Minas Gerais no governo Zema.

Como foi sua trajetória até a carreira profissional de atleta do vôlei?
Eu vim de uma família muito simples, perdi meu pai aos cinco anos de idade e ele deixou dez filhos. Minha mãe não teve como criar os filhos. Então, eu fui para a Febem. Fiquei na Febem dos cinco aos doze. Saindo da Febem, comecei a trabalhar como trocador de ônibus. Aos dezesseis anos, tive minha oportunidade no esporte. Aonde tinha muita dificuldade de transporte. Comecei no Guaíra, Olympico, Minas Tênis Clube, onde eu fui tricampeão brasileiro e bicampeão sul-americano.

E sua passagem pelo Atlético Mineiro? Você jogou com o José Roberto Guimarães?
No Atlético, eu joguei de 1980 a 1983. Era eu, Zé Roberto, Hélder, Badalhoca. Era um time que chegava sempre nas finais, entre os melhores, dos campeonatos brasileiros.

Entre títulos e medalhas, qual foi o momento mais marcante que você viveu como jogador?
Um dos títulos mais difíceis, mais marcante, foi em 1984, no Maracanãzinho, com 12 mil pessoas, onde perdíamos por 2×0, conseguimos virar para 3×2, em um dos jogos mais longos da história, com 4h15min de duração. Naquela época, tinha vantagem, então o jogo demorava muito.

E contra quem foi?
Contra o Bradesco. E o Bradesco era a seleção brasileira. Bernard, Renan, Montanaro e cia.

Em qual posição você preferia jogar? Ponta ou oposto? Em qual você acredita que rendia mais?
Oposto. E na posição de oposto, hoje em dia, eu vejo que rendia mais porque, eu ficava livre para atacar do fundo. Era a minha melhor bola de ataque, pela segunda linha.

Pelo meio fundo?
Isso, a famosa pipe.

Como foi sua experiência no vôlei italiano de clubes?
Foi muito boa! Eu pude levar minha família, minha esposa, Yolanda… Tecnicamente também foi muito bom. Era um dos campeonatos mais fortes do mundo, então, foi uma experiência excelente!

Como era a sua relação com o técnico coreano Sohn? Qual a influência dele no tricampeonato brasileiro do Minas (1984, 1985, 1986)?
O Sohn tecnicamente não acrescentou muito para gente, mas psicologicamente, ele foi um gigante. Sem ele, realmente, nós não conseguiríamos conquistar esses títulos. Então, foi um técnico muito importante para esse tricampeonato e o bicampeonato sul-americano.

Em que medida a metodologia e a filosofia do trabalho do Sohn revolucionou a preparação física no Minas? Ele promoveu a ginástica artística, algo diferente para época…
A revolução é o seguinte: nós estávamos acostumados a treinar duas horas por dia, então, com a chegada dele, nós treinávamos quatro horas por dia. E fazia também… Ele inventou a ginástica olímpica e realmente ela foi muito boa porque, dava muita flexibilidade e força. Então, ele foi um dos fundadores dessa invenção da ginástica olímpica. E nossa equipe adaptou muito bem.

E você chegou a saltar 1m do chão?
Sim. Minha envergadura é de 2,50, eu alcançava 3,50m de altura. Então, além de saltar muito, eu tinha muita velocidade.

Como foi o período preparatório para os Jogos Olímpicos de Seul em 1988?
Os Jogos de Seul, eu era praticamente titular, Bebeto de Freitas que era o treinador, então, uns quinze, vinte dias antes, eu tive uma torção no tornozelo e não pude participar. Essa foi uma das coisas que eu não consegui: ir em uma Olimpíada.

Mas também não conseguimos a medalha? Perdeu o bronze para Argentina?
Isso, ficou em 4º lugar.

E como foi a transferência conturbada do Minas?
Depois do tricampeonato, a Sadia me fez uma proposta muito boa. E eu com a minha esposa, achávamos que valeria a pena ir para a Sadia. Os dirigentes do Minas não acreditavam que eu iria sair. Cheguei para eles, disse que tinha uma proposta da Sadia. Se vocês não cobrirem eu disse que iria sair. Eles não acreditaram. Eles ficaram sabendo no outro dia que eu tinha acertado com a Sadia. Foram surpreendidos. Porque eu já tinha ouvido o Minas e eles não acreditaram que eu tinha aquela proposta. A proposta da Sadia era de 50% a mais. O Minas não conseguiu cobrir a proposta.

Atualmente, qual atleta você apontaria como o melhor jogador do mundo no vôlei masculino?
Na minha opinião, o maior jogador do mundo é o León, cubano naturalizado polonês. Ele realmente é um fenômeno. Com 14, 15 anos ele já era titular da seleção cubana. Ele é um jogador completo de 2,02m de altura, passa bem, ataca bem, bloqueia, então, é um fenômeno!

Fale um pouco sobre a Escola de Vôlei Pelé.
Eu depois que voltei da Itália eu abri a Escola de Vôlei Pelé. Já fazem 25, 26 anos. Nós ajudamos na formação cidadã das pessoas, aqueles que se destacam, a gente automaticamente encaminha para os clubes de competições. Hoje tem o Lucarelli, tem o Otávio, tem o Maurício Borges, todos eu fui técnico deles no Minas Tênis Clube, nas categorias de base. Então esse trabalho que eu venho fazendo é muito importante, primeiro, na socialização. Aqueles que se destacam nós encaminhamos para as equipes de competição.

E como foi sua experiência como técnico?
Foi excelente. Eu fui assistente técnico da equipe feminina do Minas, masculina durante quatro anos, e durante doze anos, das categorias de base juvenil e infanto-juvenil do Minas. Então uma experiência muito grande, além de ser também, técnico das seleções mineiras de 2007 a 2011.

Você pode dizer quem passou por você nesse período?
Lucarelli, Otávio, Flávio, todos eles passaram na peneirada comigo. Trabalhei com eles durante seis, sete anos. Eles chegaram no adulto do Minas, alguns ficaram por um tempo e depois saíram. Então, esses três jogadores, todos começaram comigo.

Na política, você já foi vereador por Belo Horizonte. Quais os projetos aprovados na Câmara, no seu mandato, você indica como os mais importantes?
Eu tenho seis projetos, durante quatro anos, aprovados. Um dos principais é a entrada franca em todo evento, estádio de futebol, evento esportivo, qualquer menor de doze anos tem a entrada franca acompanhado do pai ou de um responsável. Esse foi o maior projeto. Durante os quatro anos, foram seis projetos. É muito difícil aprovar qualquer proposta na Câmara. E nós não podemos fazer projetos que gerem despesa para a Prefeitura. Então, nós temos que estudar e ver alternativas para os projetos terem ganhos para a população.

Recentemente, você foi nomeado Secretário de Esportes de Minas Gerais do governo Zema. Quais são os seus planos?
O plano é levar a oportunidade através do esporte para aquelas pessoas mais carentes. Então, uma das missões minhas na Secretaria é levar o acesso ao esporte ao Vale do Jequitinhonha, ao Vale do Mucuri, aonde essas pessoas simples não tem a oportunidade. Eu sei, sou prova viva, que é a oportunidade, que falta para aquelas pessoas mais carentes. Não quer dizer que elas vão ser um Pelé do Vôlei, um Neymar, vai ser um Oscar do basquete, mas pelo menos, serão cidadãs.

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Acervo pessoal/Pelé do Vôlei